Futebol no Brasil é a maior paixão popular, explica sociólogo

Doutor em sociologia do esporte explica paixão do brasileiro pelo futebol,  como o esporte pode melhorar o convívio social e fala sobre a Copa no Brasil
Luciane Marins e Padre Roger Araujo
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Mauricio Murad, doutor em sociologia do Esporte / Foto: Reprodução YouTube

“O futebol é a maior paixão brasileira”. A afirmação é do doutor em Sociologia do Esporte, Maurício Murad, que conversa com o jornalista padre Roger Araújo no Canção Nova em Foco desta semana.
O especialista explica que nem o carnaval supera o gosto do brasileiro pelo futebol. “Todos os municípios sem exceção têm pelo menos um campinho de futebol, onde acontecem não somente competições esportivas, mas reuniões da comunidade”.
Ouça entrevista completa

Murad defende que mais do que o espaco para um jogo, o campo é um espaço social, cultural e de inclusão. A própria história do futebol no Brasil está ligada às lutas sociais. Ele recorda que nas primeiras décadas do futebol brasileiro o esporte era para a elite, mas ao longo do tempo se popularizou, passando a ser considerado um instrumento de afirmação histórica e cultural. “Por isso, o futebol é tão popular no Brasil, se espalha por todas as classes de renda, escolaridade e regiões.”
Brasil sede da Copa
O fato do Brasil ser o único país que participou de todas as Copas, único pentacampeão, maior celeiro de craques do mundo, ter o rei do futebol, a seleção de maior referência na história deste esporte e ter sediado uma única Copa, em 1950, são fatores que, para o sociólogo, tornaram justa a escolha do país para sediar o mundial.
“O problema é que não aproveitamos esse mega evento”, lamenta Murad. Ele destaca que de 2007, quando o Brasil foi anunciado sede da Copa, até hoje, o brasileiro não teve o que foi prometido, como transporte coletivo de qualidade nas grandes cidades e políticas de educação esportiva.
“O discurso do governo era o seguinte: o principal legado, a principal herança que vai ficar para comunidade vai ser o transporte coletivo das grandes cidades, e, no entanto, sete anos depois, o que temos? O transporte coletivo pior que sete anos atrás”, ressaltou Maurício Murad.
O sociólogo, que viu de perto a Alemanha na Copa de 2006 aproveitar o Mundial para integrar políticas educacionais, defende que no Brasil deveria ter acontecido o mesmo.
“Estamos precisando de valores, recuperação de valores familiares, éticos, olhar para o outro com fraternidade, generosidade, e o esporte é o grande elemento que motiva, principalmente crianças e adolescentes, para a absorção de normas e regras de convivência mutua”, afirma.
Novos Estádios
Doze arenas foram construídas para ser palco dos jogos da Copa no Brasil. Murad defende que essas arenas não devem ser apenas um espaço para competições esportivas, mas também um espaço para integração da comunidade. Para ele, esses locais devem ter “multiuso”, como sediar grandes encontros, shows de música, peças de teatro e eventos religiosos.
“É claro que ninguém é ingênuo e a gente sabe que aí tem grandes investimentos e que as pessoas que investem também pensam no lucro do empresário. Que também tivesse isso, mas que tivesse também o interesse comunitário pensado, previsto e atendido, minimamente que fosse.”
Impacto da vitória ou derrota
“Mesmo estando a população não muito empolgada com a Copa do Mundo, por conta dessa frustração de promessas feitas e não atendidas, eu acho que é uma festa popular bonita e que a gente pode tranquilamente participar dela, mesmo tendo a consciência dos usos e abusos políticos que já foram feitos e ainda poderão ser feitos”, enfatiza o doutor em Sociologia do Esporte.
Murad defende que o futebol é anterior ao uso que qualquer governo ou grupo possa fazer dele. O especialista explica que, primeiro esse esporte conquistou a alma popular, tornou-se uma identidade cultural coletiva e que, somente a partir disso, os poderosos começaram a tentar usá-lo. “Eles tentam, mas costumo dizer: a culpa não é do futebol,  é do uso político que se faz do futebol”
Uma pesquisa feita no Mestrado da Universidade Salgado de Oliveira (Universo) mostrou que não existe relação direta entre vitória ou derrota esportiva e voto, eleição. “Não existe um impacto diretamente nas urnas”, explicou.
Exemplo do futebol
Murad lembra o escritor peruano Jorge Mario Vargas Llosa. O escritor defende que o futebol é um bom exemplo do que deveria ser a vida: poucas regras, simples, fáceis de entender e com igualdade de oportunidade para todos.
Outro aspecto que Vargas Lhosa evidencia é que, como no futebol, na vida nada pode acontecer só com a ação de um indivíduo, já que o trabalho é coletivo.
“Futebol é uma grande metáfora, um grande símbolo e deveria ser melhor usado especialmente na formação de crianças, jovens e adolescentes para o futuro. Não que o futebol vá resolver tudo, claro que não. Se nem a Justiça, a Política e a Educação, tudo junto, resolveu nosso problema de desigualdade, não será o futebol a fazê-lo, mas pode ajudar pelo impacto simbólico que representa na vida brasileira”, explica Murad.
O doutor em Sociologia do Esporte, que já escreveu um livro sobre violência no futebol, torce para que a população tenha um entendimento claro de que o jogo dentro de campo não pode ser misturado com o jogo da política.
“Que as pessoas torçam, se confraternizem pelo futebol, mas com essa consciência critica de que os usos e abusos políticos que acontecerão devem ser evitados e só podem ser evitados pela informação, consciência e resistência do pensar de cada um.”

Fonte: http://noticias.cancaonova.com/futebol-no-brasil-e-a-maior-paixao-popular-explica-sociologo/
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